ISA – Vandana Shiva visita o Brasil em combate à biopirataria e aos transgênicos
Na última semana, a ambientalista e física indiana Vandana Shiva reuniu-se com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e realizou uma palestra sobre biopirataria na Universidade de Brasília (UnB), ocasiões em que também criticou duramente os organismos geneticamente modificados (OGMs) e a possível liberação de seu plantio e comercialização no país.
Para a ambientalista de notoriedade internacional e coordenadora da Fundação de Pesquisa para Políticas de Ciência, Tecnologia e Recursos Naturais da Índia, a biopirataria é o “neocolonialismo”, praticado por empresas multinacionais, principalmente pelas indústrias farmacêutica e química, por meio da apropriação dos conhecimentos retirados de comunidades tradicionais do terceiro mundo para o desenvolvimento de diversos produtos.
Durante sua palestra na Universidade de Brasília (UnB) na sexta-feira (23/05), Vandana criticou a privatização do conhecimento tradicional e coletivo associado ao uso da biodiversidade, defendendo a implementação de sistemas especiais de proteção que assegurem o reconhecimento e a adequada repartição de benefícios para as comunidades.
Ela descreveu a apropriação do conhecimento tradicional como capitalismo desesperado, que precisa descrever o roubo como criatividade. De acordo com a ambientalista, o capitalismo desesperado rende, anualmente, US$ 50 bilhões à indústria de biotecnologia dos Estados Unidos.
A ambientalista equiparou a biopirataria à estratégia adotada pelas empresas de sementes, como a Monsanto, de subordinar a produção de alimentos no mundo a seus interesses econômicos. Sobre este assunto, Vandana deixou um recado ao novo governo: “o programa Fome Zero só será bem sucedido se for também uma campanha Transgênicos Zero”, pois, segundo ela, esses organismo são uma maneira de causar fome e espalhar doenças.
Ela acusou as empresas de inventar dados e promover falsas pesquisas, citando matéria recentemente publicada na revista inglesa Science, que superestimava supostos benefícios das culturas geneticamente modificadas em solo indiano. A ambientalista entregou à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, estudos desenvolvidos por universidades, institutos e organizações não-governamentais que contradizem dados da publicação. “Os cientistas que assinam aquele artigo nunca estiveram na Índia, apenas repassaram informações recebidas de uma grande empresa de biotecnologia.”
Além disso, Vandana comentou sobre a inversão do princípio do poluidor pagador que vem sendo adotado pelas empresas de semente. A Monsanto já processou diversos agricultores, transferindo para eles o ônus da contaminação genética de suas lavouras, situações que continuam a ser ignoradas pelos defensores dos OGMs e pela grande imprensa brasileira. O caso mais conhecido é o do canadense Percy Schmeiser, que prestou um depoimento sobre o assunto no Fórum Social Mundial deste ano.
Transgênicos no Brasil
Ela disse não entender o interesse do Brasil pela soja transgênica, uma vez que a performance positiva do país no mercado externo do grão, principalmente na Europa, estava diretamente relacionada à ausência de organismos geneticamente modificados, uma exceção entre os grandes produtores mundiais.
De acordo com a ativista, a tentativa de avanço das culturas transgênicas na Índia se assemelhou em muito ao que vem ocorrendo no país, especialmente no Rio Grande do Sul. Lá também a Monsanto tentou forçar a política de fato consumado, estimulando agricultores a utilizar as sementes modificadas sob a promessa de maior produtividade, o que não se concretizou. “Os organismos geneticamente modificados estão agora proibidos na Índia devido ao fracasso, sob todos os aspectos, das experiências que se realizaram em quatro Estados”, destacou.
Após relatar casos de funcionários do governo norte-americano que já trabalharam na Monsanto, ela aproveitou para alertar sobre a visita do representante do comércio dos Estados Unidos, Robert Zoellick, ao Brasil nesta semana. Oficialmente, Zoellick discutirá a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), mas, segundo a ambientalista, o oficial norte-americano também incluirá entre os assuntos a serem abordados um pedido para que seja retirada a proibição dos transgênicos no país.
Apesar das oposições, Vandana espera que ainda possa haver uma articulação internacional com o governo brasileiro para a construção de uma alternativa global aos organismos geneticamente modificados.
Adriana Ramos